O moleque estava nervoso. A
partida ia começar.
- Pai, estou esperando este jogo desde que eu estava
com 7 anos.
Ele fez 8, há 4 dias.
Eu também era assim com futebol. Tão
vidrado que tomei uma madura decisão aos 12 anos. “Escutar jogo pela rádio é angustiante,
quando tiver um filho, ele vai comigo a todos os jogos no Maracanã”.
Agora que ele está adorando
futebol, chegou a hora de cumprir a promessa.
- Vai se arrumar que te levo ao
jogo.
- Obaaaa!! Vamos pra Madrid!?!?!?
E então veio a expressão
simbólica de como ainda estou preso na década de 80:
- Cuma!?!?! (Mocó, Didi – Vida e Obra)

- E na escola? Gabriel é tricolor
ou flamenguista?
- É Barça! Laurinha é Real,
Arthur é Juventus e João Pedro é PSG também. Igual a mim.
O jogo começou e ele dizia o nome
de todos os jogadores. Pronunciava melhor do que eu.
Via o jogo e me dei conta que
finalmente estava assistindo a futebol. Isso despertou uma sensação que agora
só com análise pra eu entender. Enquanto xingava os dirigentes ridículos por
terem acabado com o futebol daqui, agradecia a concorrência desleal do futebol
europeu e ao vício terrível dos joguinhos de vídeo game por colocarem a paixão
do esporte mais próxima a essas crianças.
Minha única raiva que agora em
vez de ir ao Maracanã terei que dar um
jeito de desembolsar muito mais para algum dia ir ao Parc des Princes e
cumprir a promessa.
OBS: Quando o Marcelo fez
terceiro gol do Real Madrid, os olhos de Daniel se encheram d’água.