Estava eu possivelmente
sendo invejado até pelo Cauã Reymond. Sete mulheres ao meu lado naquela mesa.
Rolava um papo-cabeça sobre causas progressistas. Mostrei apoio e para
impressioná-las, cite expressões da moda como “empoderamento feminino”. Mas
quando Andrea chamou o garçom...
- Fabinhooooo, meu
amor! Mais uma rodada que estamos com sede.
Meu machismo acordou
sem bocejar. Como aquelas mulheres aguentavam mais bebida do que eu? Meu
estômago já estava encharcado, mas jamais iria confessar. Pensei em dizer que havia
lembrado de um compromisso urgente. Não podia. Minha mulher estava junto. Claro
que Raquel iria pedir explicações sobre esse tal compromisso.
Fiz como Bill Clinton,
brindei, mas não bebi. Botei o copo na mesa e então.... Veio a ideia “genial”.
- E a cultura do
álcool, hein?
- Vartan!!!! Estamos
falando sobre a cultura do estupro – esclareceu Débora, uma militante feminista
do universo acadêmico.
- Eu sei. Mas esse
debate comportamental está além do universo homem x mulher...
- Ah... Lá vem Vartan
e suas teorias... É melhor pedir vodka! – recomendou Beta, com a paciência
típica de uma TPM.
Suei frio com a possibilidade.
- Vou me explicar
melhor. Nada contra a bebida e nem ao fato de alguém querer ficar bêbado, ok? A
cultura que digo é a competitividade disfarçada entre os consumidores. Parece
que o fígado mais resistente recebe o troféu de companhia campeã. E isso é uma
mentira! Noventa por cento dos bêbados ficam sem noção e te dão trabalho no fim
da noite.
- Isso é verdade. E você está dentro desses
noventa por cento! – disse Raquel com uma sinceridade que não ajudava nada.
Fingi que não
escutei. Cauã Reymond já não me invejava mais.
- Queria entender
qual a vantagem de contar na segunda que quatro caixas de cerveja foram embora num
domingo. E mais: queria saber por que as pessoas são admiradas por isso. Estudos....
- E aíííí? Mais uma
rodada, pessoal?
Antes que alguém respondesse
o garçom, já emendei o assunto.
- Estudos indicam que
essa obsessão pela quantidade que se é capaz de beber não passa de uma busca
pela aceitação grupal. O homem que bebe pouco é visto como frágil, menos
másculo, que é uma cultura machista alimentada também por muitas mulheres.
Louvado seja o engov que....
Fui interrompido por
um burburinho:
- Ele já bebeu demais.
Melhor pedir a conta!
- Fabinhoooo, a saideira!