Num jogo de palavras, ele seria o camisa 10. Tem gente que sabe se defender para evitar seu o ponto final. Tem gente que sabe atacar em busca de uma vitória exclamativa. Esses cumprem bem o seu script. Mas há aqueles que, ao receberem seu papel, nos fornecem uma nova leitura. Porque interpretam com simplicidade a complexidade do óbvio. E fazem sua arte exaltando as artes que enxergam.
Armando Nogueira era assim. Não se sabe se o gol ficava mais belo depois que ele escrevia ou se o gol já era lindo e a gente via apenas como um fato corriqueiro. Como uma maçã que caiu da árvore sem que fôssemos capazes de notar a lei gravidade. Mas Armando notava, porque mais do que a visão do jogo, teve a visão da jogada. Mais do que a visão da jogada, teve a visão do jogador. E mais do que a visão do jogador, teve a visão do ser humano.
terça-feira, 30 de março de 2010
sábado, 30 de janeiro de 2010
O sinestésico
Tato, como o próprio nome anunciava, era um rapaz cheio de dedos. Talvez por isso tenha sentido um frio na espinha antes de comunicar à família que ia largar tudo para estudar anatomia. O pai disse que assim ele ia trocar os pés pelas mãos. A mãe também colocou uma pulga atrás da sua orelha quando perguntou o que o levaria a abandonar o trabalho de digitação, a profissão perfeita para ele.
Mas Tato botou na cabeça que queria conhecer cada parte do corpo humano e pela primeira vez iria olhar só para o próprio umbigo. Ah, e a família não teria que meter o nariz onde não era chamada.
Estava decidido a nunca mais ser o testa de ferro daquele chefe que era um chute no saco. Vivia carregando a empresa nas costas e pesava em seus ombros a responsabilidade de entregar todo trabalho com ele fungando em seu cangote.
Tudo aquilo o embrulhava o estômago e já há algum tempo empurrava aquela situação com a barriga. Mas havia chegado a hora de dar um pé na bunda do chefe pentelho e agarrar com unhas e dentes a faculdade de Anatomia. Foi de peito aberto fazer o que seu coração mandava.
Mesmo sabendo que a mensalidade custava os olhos da cara, fez a matrícula. “Pode ter sido um passo maior que a perna”, pensou. Mas, logo em seguida, lembrou o dito popular que sempre ouvia do antigo chefe: Ajoelhou tem que rezar. Além de rezar, só havia um jeito de pagar a conta: fechar a mão
Controlou o bolso com pulso forte. Os estudos também. Era o crânio da faculdade. Mas uma matéria cabeluda era o seu calcanhar-de-aquiles. Precisava que os amigos dessem uma mãozinha. E foi assim que conheceu Geysa, a menina da minissaia, que compartilhava tudo o que sabia sobre o corpo humano.
Com ela, mesmo se ele tivesse entendido a matéria, dava uma de joão-sem- braço, só para ficar escutando aquela mulher que falava pelos cotovelos. Ele, apaixonado, ficava quieto, com um nó na garganta, sem conseguir se declarar. E se ela virasse a cara?
Só que o povo tem a língua maior que a boca e começou a falar mal da Geysa. Dizia que ela fazia a faculdade nas coxas e que não era companhia para Tato. Mas ele não deu ouvidos. Tomou coragem e entrou de sola naquela relação, que era muito mais do que uma coisa de pele.
Com a menina da minissaia, Tato finalmente conhecia todas, mas todas as partes do corpo humano. Enquanto isso, Geysa lavava sua alma.
Mas Tato botou na cabeça que queria conhecer cada parte do corpo humano e pela primeira vez iria olhar só para o próprio umbigo. Ah, e a família não teria que meter o nariz onde não era chamada.
Estava decidido a nunca mais ser o testa de ferro daquele chefe que era um chute no saco. Vivia carregando a empresa nas costas e pesava em seus ombros a responsabilidade de entregar todo trabalho com ele fungando em seu cangote.
Tudo aquilo o embrulhava o estômago e já há algum tempo empurrava aquela situação com a barriga. Mas havia chegado a hora de dar um pé na bunda do chefe pentelho e agarrar com unhas e dentes a faculdade de Anatomia. Foi de peito aberto fazer o que seu coração mandava.
Mesmo sabendo que a mensalidade custava os olhos da cara, fez a matrícula. “Pode ter sido um passo maior que a perna”, pensou. Mas, logo em seguida, lembrou o dito popular que sempre ouvia do antigo chefe: Ajoelhou tem que rezar. Além de rezar, só havia um jeito de pagar a conta: fechar a mão
Controlou o bolso com pulso forte. Os estudos também. Era o crânio da faculdade. Mas uma matéria cabeluda era o seu calcanhar-de-aquiles. Precisava que os amigos dessem uma mãozinha. E foi assim que conheceu Geysa, a menina da minissaia, que compartilhava tudo o que sabia sobre o corpo humano.
Com ela, mesmo se ele tivesse entendido a matéria, dava uma de joão-sem- braço, só para ficar escutando aquela mulher que falava pelos cotovelos. Ele, apaixonado, ficava quieto, com um nó na garganta, sem conseguir se declarar. E se ela virasse a cara?
Só que o povo tem a língua maior que a boca e começou a falar mal da Geysa. Dizia que ela fazia a faculdade nas coxas e que não era companhia para Tato. Mas ele não deu ouvidos. Tomou coragem e entrou de sola naquela relação, que era muito mais do que uma coisa de pele.
Com a menina da minissaia, Tato finalmente conhecia todas, mas todas as partes do corpo humano. Enquanto isso, Geysa lavava sua alma.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Insônia
A insônia existe. É só ficar acordado de madrugada que você vai conhecê-la. Mas já adianto: ela só não é um verdadeiro pesadelo, porque obviamente você não está dormindo. É claro, existem várias maneiras de você vencer a insônia à noite e o sono de dia . Ir morar no Japão é uma saída. O fuso horário de 12 horas em relação ao Brasil vai fazer você se sentir um ser normal. Isso funcionaria se a indústria da insônia não fosse uma organização tão aparelhada.
Eles estão unidos. O seu vizinho, por exemplo. Por que você acha que ele dá as festas até altas horas ao som de “Macarena”? Você acredita que alguém ache mesmo divertido dançar “Macarena”? Acorde para vida! Ele é um agente dessa indústria. E seus convidados também. Tudo para perturbar seu descanso.
Quando acaba a festa, você acha que vai relaxar vendo um filmezinho para, enfim, pegar no sono. Sonho seu! A Rede Globo também está envolvida na máfia e anuncia o Intercine dando duas opções de filmes: Adoradores do diabo ou Terror na montanha! Assim, quem consegue dormir?
A máquina funciona dessa maneira: com insônia você acaba se associando a um plano de saúde (pois é, os planos também são parte da engrenagem) e procura um médico. Ele diz que é apenas estresse, e manda você fazer análise. O analista indica um livro de auto-ajuda. Os livros de auto-ajuda levam você a assistir a palestras de auto-ajuda. Logo, logo, os participantes querem se mostrar amigos sensíveis e vão começar a mandar e-mails “Para refletir”, tudo em arquivos PPS gigantes. E quando você perceber, está passando a madrugada inteira lendo e enviando os PPS “lindos COM SOM”.
Lembre-se: a máfia não dorme em serviço. Ela sabe que, quanto mais tempo acordado, você consome mais, alimentando assim os interesses dessa ideologia neoliberal selvagem. Então, fiquemos atentos na nossa vigília, porque se cochilarmos, nunca mais vamos dormir.
PS: se você dormiu antes de chegar ao fim do texto, quer dizer que estamos no caminho certo.
Eles estão unidos. O seu vizinho, por exemplo. Por que você acha que ele dá as festas até altas horas ao som de “Macarena”? Você acredita que alguém ache mesmo divertido dançar “Macarena”? Acorde para vida! Ele é um agente dessa indústria. E seus convidados também. Tudo para perturbar seu descanso.
Quando acaba a festa, você acha que vai relaxar vendo um filmezinho para, enfim, pegar no sono. Sonho seu! A Rede Globo também está envolvida na máfia e anuncia o Intercine dando duas opções de filmes: Adoradores do diabo ou Terror na montanha! Assim, quem consegue dormir?
A máquina funciona dessa maneira: com insônia você acaba se associando a um plano de saúde (pois é, os planos também são parte da engrenagem) e procura um médico. Ele diz que é apenas estresse, e manda você fazer análise. O analista indica um livro de auto-ajuda. Os livros de auto-ajuda levam você a assistir a palestras de auto-ajuda. Logo, logo, os participantes querem se mostrar amigos sensíveis e vão começar a mandar e-mails “Para refletir”, tudo em arquivos PPS gigantes. E quando você perceber, está passando a madrugada inteira lendo e enviando os PPS “lindos COM SOM”.
Lembre-se: a máfia não dorme em serviço. Ela sabe que, quanto mais tempo acordado, você consome mais, alimentando assim os interesses dessa ideologia neoliberal selvagem. Então, fiquemos atentos na nossa vigília, porque se cochilarmos, nunca mais vamos dormir.
PS: se você dormiu antes de chegar ao fim do texto, quer dizer que estamos no caminho certo.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Novos Tempos
A primeira década do milênio chegou ao fim e algumas previsões não se confirmaram. São poucas as minhas esperanças de que a família Jetson se redima e apareça com aqueles carros voadores. Com isenção de IPI, então, só um milagre.
Quando vi pela primeira vez uma esteira rolante, acreditei que o futuro, como os Jetsons anunciavam, estaria próximo. Já imaginava o meu golzinho mil (que Deus e os ladrões que o levaram o tenham) alçando voo. Mas alguma coisa deu errado. Talvez por dispensar esforço, as esteiras deixaram os cientistas mais preguiçosos e a ideia do carro voador não decolou, por assim dizer.
Agora imagine o teletransporte, que acabará com a distância no mundo, com parte das emissões de CO2 e com a desculpa de chegar mais tarde em casa por causa do engarrafamento. A invenção mais esperada de todos os tempos, pelo andar da carruagem (pois é, não existem carros voadores, lembram?), deve demorar não sei quantos anos para virar realidade. Só falta isso acontecer no dia em que eu me aposentar, quando provavelmente não vou mais precisar enfrentar o trânsito. Mas por questão de honra, anotem: mesmo que subaproveitado, o teletransporte será utilizado por mim. Nem que seja para ir ao bingo.
Enquanto todos tentavam imaginar cenários fantásticos, ninguém previu os acontecimentos que realmente indicariam um novo tempo. Hoje quem fala merda no Brasil é aplaudido na Dinamarca. O craque do nosso campeonato nacional, eleito pela torcida brasileira, é um....Argentino (Conca). E a pizza se transformou em panetone.
Por falar em Brasília, Renato Russo já vinha avisando desde o século passado que o futuro não é mais como era antigamente. E se poesia é para ser entendida como quiser, eu entendo da seguinte da forma: 2001, uma odisséia no espaço passou do prazo da validade há nove anos. Não serão mais as invenções tecnológicas que ditarão o cenário do terceiro milênio. Será a natureza com suas condições climáticas. Como era no passado. Esse é o futuro.
Bem, mas tudo isso é só mais uma previsão.
Quando vi pela primeira vez uma esteira rolante, acreditei que o futuro, como os Jetsons anunciavam, estaria próximo. Já imaginava o meu golzinho mil (que Deus e os ladrões que o levaram o tenham) alçando voo. Mas alguma coisa deu errado. Talvez por dispensar esforço, as esteiras deixaram os cientistas mais preguiçosos e a ideia do carro voador não decolou, por assim dizer.
Agora imagine o teletransporte, que acabará com a distância no mundo, com parte das emissões de CO2 e com a desculpa de chegar mais tarde em casa por causa do engarrafamento. A invenção mais esperada de todos os tempos, pelo andar da carruagem (pois é, não existem carros voadores, lembram?), deve demorar não sei quantos anos para virar realidade. Só falta isso acontecer no dia em que eu me aposentar, quando provavelmente não vou mais precisar enfrentar o trânsito. Mas por questão de honra, anotem: mesmo que subaproveitado, o teletransporte será utilizado por mim. Nem que seja para ir ao bingo.
Enquanto todos tentavam imaginar cenários fantásticos, ninguém previu os acontecimentos que realmente indicariam um novo tempo. Hoje quem fala merda no Brasil é aplaudido na Dinamarca. O craque do nosso campeonato nacional, eleito pela torcida brasileira, é um....Argentino (Conca). E a pizza se transformou em panetone.
Por falar em Brasília, Renato Russo já vinha avisando desde o século passado que o futuro não é mais como era antigamente. E se poesia é para ser entendida como quiser, eu entendo da seguinte da forma: 2001, uma odisséia no espaço passou do prazo da validade há nove anos. Não serão mais as invenções tecnológicas que ditarão o cenário do terceiro milênio. Será a natureza com suas condições climáticas. Como era no passado. Esse é o futuro.
Bem, mas tudo isso é só mais uma previsão.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Possíveis temas para a crônica da semana
1) O panetone de Arruda.
Escrever sobre a desculpa mais difícil de engolir pode dar indigestão.
2) O hexa do Flamengo, a salvação do Botafogo e o milagre do Fluminense.
A probabilidade de tudo isso acontecer era de 0,08%. A possibilidade de você ainda não ter escutado isso é de 0%.
3) A eleição de Patrícia Amorim no Flamengo. Pela primeira vez, um clube de futebol do Rio será presidido por uma mulher.
Não faço a menor idéia do que isso possa ter de tão relevante depois de Margaret Thatcher, Michelle Bachelet, Angela Merkel e, por que não?, Rosinha Garotinho que já governou (Deus sabe como) o Rio de Janeiro.
4) A enésima conferência mundial sobre as mudanças climáticas. Já deve ter até a marca no Guinness Book.
Humm... Não quero me esquentar com isso não. Não hoje.
5) As listas de fim de ano.
Já estou fazendo essa.
6) A saída fracassada de Zelaya da Embaixada Brasileira em Honduras.
Ninguém mais se lembra de quem é Zelaya. Nem eu.
7) Os cariocas porcos, segundo o prefeito Eduardo Paes.
É bem capaz de você querer jogar essa crônica no lixo.
8) As enchentes em São Paulo.
É muita tristeza. Se a gente começar a chorar, será outro aguaceiro.
9) A nova pesquisa sobre a eleição presidencial.
Não vamos dar ibope para esses institutos. Estão acertando menos do que matemáticos em campeonatos de futebol.
10) A preguiça do fim de ano.
Eureca!!! Tá escolhido!!! Termino o texto por aqui. Um abraço a todos e lembranças aos familiares.
Escrever sobre a desculpa mais difícil de engolir pode dar indigestão.
2) O hexa do Flamengo, a salvação do Botafogo e o milagre do Fluminense.
A probabilidade de tudo isso acontecer era de 0,08%. A possibilidade de você ainda não ter escutado isso é de 0%.
3) A eleição de Patrícia Amorim no Flamengo. Pela primeira vez, um clube de futebol do Rio será presidido por uma mulher.
Não faço a menor idéia do que isso possa ter de tão relevante depois de Margaret Thatcher, Michelle Bachelet, Angela Merkel e, por que não?, Rosinha Garotinho que já governou (Deus sabe como) o Rio de Janeiro.
4) A enésima conferência mundial sobre as mudanças climáticas. Já deve ter até a marca no Guinness Book.
Humm... Não quero me esquentar com isso não. Não hoje.
5) As listas de fim de ano.
Já estou fazendo essa.
6) A saída fracassada de Zelaya da Embaixada Brasileira em Honduras.
Ninguém mais se lembra de quem é Zelaya. Nem eu.
7) Os cariocas porcos, segundo o prefeito Eduardo Paes.
É bem capaz de você querer jogar essa crônica no lixo.
8) As enchentes em São Paulo.
É muita tristeza. Se a gente começar a chorar, será outro aguaceiro.
9) A nova pesquisa sobre a eleição presidencial.
Não vamos dar ibope para esses institutos. Estão acertando menos do que matemáticos em campeonatos de futebol.
10) A preguiça do fim de ano.
Eureca!!! Tá escolhido!!! Termino o texto por aqui. Um abraço a todos e lembranças aos familiares.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Brasil x Israel x Palestina
Lula é um homem de ideias originais, como a de, por exemplo, copiar a política econômica do governo anterior. Mas essa de propor uma partida de futebol entre a Seleção Brasileira e um Combinado Israel/Palestina, nosso presidente fez sem pensar (Só dessa vez!). Acho que ele não imagina o risco que é este jogo diplomático.
Já que ele não imagina, imaginemos nós.
Tudo começaria pela escolha do técnico do Combinado. Seria Judeu ou palestino? Depois de muita discussão, chegariam a um acordo: não haveria um técnico, mas sim uma comissão técnica internacional, supervisionada pela ONU.
A convocação do Selecionado Israel/Palestina seria outra grande negociação. Negociação mesmo. Como o jogo despertaria a atenção mundial, uma grande empresa de Nova Iorque patrocinaria o evento, mas sob uma condição: o Combinado teria que ser formado por 6 judeus e 5 palestinos.
Os palestinos, é claro, protestariam. Alguns seriam radicais e acusariam os EUA de querer, aos poucos, expulsar o seu povo do Combinado e transformar o time apenas na Seleção de Israel.
Mas Lula é o cara. Ele resolve o problema de forma simples. As seleções iam entrar em campo com apenas 10 jogadores. Para convencer Dunga foi fácil: “É só tirar o Gilberto Silva que ninguém vai notar”. Difícil foi fazer o presidente da empresa americana, que tinha um grande número de acionistas judeus, desistir da ideia de jogar com 6 israelenses e 4 palestinos. Foi preciso a apresentação de um slide do pessoal do marketing, informando que a medida poderia manchar a imagem da empresa. 5 palestinos e 5 judeus seriam algo mais rentável. Afinal, é preciso atingir também o mercado palestino. Qual judeu quer perder negócio?
Outras confusões menores aconteceriam, mas seriam, facilmente, contornáveis. Como a oração que os jogadores fazem antes de entrar em campo. Lula persuadiria divinamente os atletas do Combinado a conversarem com Alá ou Jeová em particular. É mais íntimo.
A imprensa também receberia recomendações da ONU para evitar certas expressões. O locutor Sílvio Luiz teria sua frase “Pelas barbas do profeta” censurada. Já o narrador que dissesse “Olha a bomba”, no momento de um chute, no fim do jogo, teria que explicar melhor o que realmente viu naquele exato momento.
Entre as duas seleções, o único problema seria na hora do cara e coroa. O Brasil ganha na moeda, mas os palestinos querem jogar no lado do campo que aponta para a direção de Meca. Como Dunga não tem o costume de ser agradável, o Brasil se nega a mudar de lado. Até que surge um cartola brasileiro. Ele conversa com o adversário, sai com a moeda do cara e coroa no bolso e com a ordem para o Brasil jogar do outro lado.
No jogo, surge a maior de todas as questões. Os jogadores israelenses afirmam que a grande área é um território sagrado dos judeus e não deixam os palestinos entrarem. Argumentam que há, inclusive, indícios de que alguns dos jogadores palestinos (não todos!) teriam o interesse de fazer gol contra, apenas para prejudicar a defesa que é toda formada por israelenses. O ataque é de palestinos. Bem, essa era a escalação no papel, porque neste jogo ninguém nunca soube dizer, de verdade, quem ataca e quem defende.
Enquanto a comissão técnica internacional se reunia para decidir como resolver aquele impasse da grande área, Adriano seguia fazendo gols e, nas comemorações, homenageava a Vila Cruzeiro.
No fim partida, de um lado, o patrocinador vibrava com a alta das ações da empresa, após o evento. Do outro, palestinos e israelenses trocavam acusações pela derrota. Para por fim àquele mal-estar, Lula conversou com o artilheiro brasileiro e teve outra ideia: um churrasquinho na laje do Adriano, lá na Vila Cruzeiro, para confraternização. Lula só iria buscar a Dilma para apresentá-la aos moradores como mentora do PAC (Pela Animação do Churrasco).
E assim, quando desse um intervalinho no pagode, judeus e palestinos iriam olhar a favela carioca e se perguntar: o que é pior? Quando a terra é de ninguém ou quando a terra é de todo mundo?
Já que ele não imagina, imaginemos nós.
Tudo começaria pela escolha do técnico do Combinado. Seria Judeu ou palestino? Depois de muita discussão, chegariam a um acordo: não haveria um técnico, mas sim uma comissão técnica internacional, supervisionada pela ONU.
A convocação do Selecionado Israel/Palestina seria outra grande negociação. Negociação mesmo. Como o jogo despertaria a atenção mundial, uma grande empresa de Nova Iorque patrocinaria o evento, mas sob uma condição: o Combinado teria que ser formado por 6 judeus e 5 palestinos.
Os palestinos, é claro, protestariam. Alguns seriam radicais e acusariam os EUA de querer, aos poucos, expulsar o seu povo do Combinado e transformar o time apenas na Seleção de Israel.
Mas Lula é o cara. Ele resolve o problema de forma simples. As seleções iam entrar em campo com apenas 10 jogadores. Para convencer Dunga foi fácil: “É só tirar o Gilberto Silva que ninguém vai notar”. Difícil foi fazer o presidente da empresa americana, que tinha um grande número de acionistas judeus, desistir da ideia de jogar com 6 israelenses e 4 palestinos. Foi preciso a apresentação de um slide do pessoal do marketing, informando que a medida poderia manchar a imagem da empresa. 5 palestinos e 5 judeus seriam algo mais rentável. Afinal, é preciso atingir também o mercado palestino. Qual judeu quer perder negócio?
Outras confusões menores aconteceriam, mas seriam, facilmente, contornáveis. Como a oração que os jogadores fazem antes de entrar em campo. Lula persuadiria divinamente os atletas do Combinado a conversarem com Alá ou Jeová em particular. É mais íntimo.
A imprensa também receberia recomendações da ONU para evitar certas expressões. O locutor Sílvio Luiz teria sua frase “Pelas barbas do profeta” censurada. Já o narrador que dissesse “Olha a bomba”, no momento de um chute, no fim do jogo, teria que explicar melhor o que realmente viu naquele exato momento.
Entre as duas seleções, o único problema seria na hora do cara e coroa. O Brasil ganha na moeda, mas os palestinos querem jogar no lado do campo que aponta para a direção de Meca. Como Dunga não tem o costume de ser agradável, o Brasil se nega a mudar de lado. Até que surge um cartola brasileiro. Ele conversa com o adversário, sai com a moeda do cara e coroa no bolso e com a ordem para o Brasil jogar do outro lado.
No jogo, surge a maior de todas as questões. Os jogadores israelenses afirmam que a grande área é um território sagrado dos judeus e não deixam os palestinos entrarem. Argumentam que há, inclusive, indícios de que alguns dos jogadores palestinos (não todos!) teriam o interesse de fazer gol contra, apenas para prejudicar a defesa que é toda formada por israelenses. O ataque é de palestinos. Bem, essa era a escalação no papel, porque neste jogo ninguém nunca soube dizer, de verdade, quem ataca e quem defende.
Enquanto a comissão técnica internacional se reunia para decidir como resolver aquele impasse da grande área, Adriano seguia fazendo gols e, nas comemorações, homenageava a Vila Cruzeiro.
No fim partida, de um lado, o patrocinador vibrava com a alta das ações da empresa, após o evento. Do outro, palestinos e israelenses trocavam acusações pela derrota. Para por fim àquele mal-estar, Lula conversou com o artilheiro brasileiro e teve outra ideia: um churrasquinho na laje do Adriano, lá na Vila Cruzeiro, para confraternização. Lula só iria buscar a Dilma para apresentá-la aos moradores como mentora do PAC (Pela Animação do Churrasco).
E assim, quando desse um intervalinho no pagode, judeus e palestinos iriam olhar a favela carioca e se perguntar: o que é pior? Quando a terra é de ninguém ou quando a terra é de todo mundo?
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Nossos tantos muros
O tempo, quase sempre, é irônico. Quem imaginava que quando Pedro Bial apareceu, em 89, em frente ao Muro de Berlim, estaria cobrindo o primeiro de seus muitos paredões? O fim do comunismo estava sendo celebrado pelo futuro senhor “Big Brother”, expressão que, na verdade, surgiu no romance 1984, de George Orwell, para designar o ditador que promovia o excesso de vigilância do Estado.
Ora, nada é tão controlador como o Estado comunista. E nada é tão redentor como ver o fim deste controle ser noticiado por alguém que comandaria os Big Brothers. Mesmo que seja de forma metafórica.
Eu não sei se em uma das tantas noites de eliminação do Big Brother, o Bial, com sua impostação poética e charmosa, já fez alguma referência ao Muro de Berlim. Mas o fato é que o reality show da TV Globo tem pontos em comum com aquele momento histórico. Bem, e se não tiver, eu forço a barra para que tenha e salvo meu texto.
Ao ultrapassar os muros da casa, temos o impulso de dividir os participantes em duas turmas. Geralmente, o grupo do bem e o do mal. Sempre é difícil julgar quem pertence a cada categoria. Já o Muro de Berlim dividia, simplesmente, o mundo entre dois sistemas. Agora, pensemos numa casa onde, de um lado, estariam Stalin e Fidel, calando e fuzilando seus adversários. Do outro, Kennedy e Bush, patrocinando golpes, produzindo terroristas, promovendo guerras e fomentando a indústria bélica. Qual seria a turma do bem e a turma do mal? Quem você gostaria de eliminar? Ligue, participe!
Outro ponto é a assistência que a produção do Big Brother fornece aos participantes. Do lado de dentro do muro, eles têm direito a alimentação, segurança, conforto etc. Em troca, perde-se a liberdade. Dizem que em Berlim Oriental era assim. O cidadão tinha direito a educação, saúde e emprego (conforto já era demais. Isso é coisa de capitalista!). Mas se quisesse dar aquela espiadinha do outro lado, era eliminado. Fuzilado mesmo no paredão.
Os muros do Projac e de Berlim me dão a sensação de que o ser humano aceita se confinar numa casa em busca de seu sonho. Seja o sonho de um milhão de reais ou dos 15 minutos de fama. Mas não se confina numa cidade em troca da garantia de necessidades básicas. Assim, torna-se capaz de destruir muros reais ou imaginários para ir atrás de seus desejos, nem que seja a promoção nº1 do McDonald´s.
Ora, nada é tão controlador como o Estado comunista. E nada é tão redentor como ver o fim deste controle ser noticiado por alguém que comandaria os Big Brothers. Mesmo que seja de forma metafórica.
Eu não sei se em uma das tantas noites de eliminação do Big Brother, o Bial, com sua impostação poética e charmosa, já fez alguma referência ao Muro de Berlim. Mas o fato é que o reality show da TV Globo tem pontos em comum com aquele momento histórico. Bem, e se não tiver, eu forço a barra para que tenha e salvo meu texto.
Ao ultrapassar os muros da casa, temos o impulso de dividir os participantes em duas turmas. Geralmente, o grupo do bem e o do mal. Sempre é difícil julgar quem pertence a cada categoria. Já o Muro de Berlim dividia, simplesmente, o mundo entre dois sistemas. Agora, pensemos numa casa onde, de um lado, estariam Stalin e Fidel, calando e fuzilando seus adversários. Do outro, Kennedy e Bush, patrocinando golpes, produzindo terroristas, promovendo guerras e fomentando a indústria bélica. Qual seria a turma do bem e a turma do mal? Quem você gostaria de eliminar? Ligue, participe!
Outro ponto é a assistência que a produção do Big Brother fornece aos participantes. Do lado de dentro do muro, eles têm direito a alimentação, segurança, conforto etc. Em troca, perde-se a liberdade. Dizem que em Berlim Oriental era assim. O cidadão tinha direito a educação, saúde e emprego (conforto já era demais. Isso é coisa de capitalista!). Mas se quisesse dar aquela espiadinha do outro lado, era eliminado. Fuzilado mesmo no paredão.
Os muros do Projac e de Berlim me dão a sensação de que o ser humano aceita se confinar numa casa em busca de seu sonho. Seja o sonho de um milhão de reais ou dos 15 minutos de fama. Mas não se confina numa cidade em troca da garantia de necessidades básicas. Assim, torna-se capaz de destruir muros reais ou imaginários para ir atrás de seus desejos, nem que seja a promoção nº1 do McDonald´s.
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